Seja bem-vindo a esse espaço no qual se pretende multiplicar conhecimentos pertinentes ao continente africano e de sua diáspora no Novo Mundo. É reconhecida a necessidade das trocas de saberes e a socialização do conhecimento na área da História, com vistas ao desenvolvimento das atividades de ensino e pesquisa na busca da inclusão de temas que contribuam para a compreensão da multiplicidade das experiências humanas e a criticar estereótipos organicamente naturalizados.



domingo, 25 de abril de 2010

Os significados do dia 23 de abril


Dia 23 de abril é um dia em que a religiosidade é latente para muitos cariocas. Os católicos e cultuadores de matriz africana comemoram o dia de Sao Jorge cujo sincretismo nos leva ao orixá guerreiro Ogun. Santidade muitas vezes questionada pela Santa Sé e que alguns afirmaram ter sido ameaçada pela mesma, quando da visita do Papa João Paulo II na primeira vez ao Brasil. A igreja não reconhecia o santo e outros criticavam essa mistura com cultos afro. O importante é que São Jorge faz parte do imaginário da luta maniqueísta que nos apavora todos os dias. É o desejo de se livrar das balas perdidas, da ira dos inimigos e de estar vestido e armado como ele. De uma forma ou de outra nos vemos como o cavaleiro da Capadócia e almejamos vencer o Dragão do Mal. Ou vitoriosos e desbravadores como Ogun, o ferreiro. Orixá dos caminhos, da metalurgia, da modernidade, da idéia do corpo fechado, daqueles que se divertem a cada término da jornada de trabalho e se refrescam com uma deliciosa cerveja gelada.
São Jorge é o santo mais popular que há e a simpatia por ele faz parte de uma leitura ligada a um posicionamento político - agregar o excluído e militar pelo que de mais popular ele representa: o trabalhador/operário, o boêmio, subversivo, aquele que está à margem, mas que não perde a crença num mundo melhor - , e, ou religioso por associação. O fato é que encontramos sua imagem em espaços ditos profanos. Acredito que essa religiosidade está em todos os nossos ambientes sociais. Todos os espaços são sacros! Seja no buteco da esquina, porque é a representação material do seu dono de se obter o pão de cada dia e por isso mereça a benção do santo; ou numa quadra de escola de samba, que espiritualmente tem sua ligação com o orixá Ogum e dentro dos preceitos pede-se sua proteção e toma-o como patrono. Os sambistas, figuras que povoam as madrugadas e circulam por tantos caminhos, a ele também pedem proteção e daí presenciarmos essa mistura com o cotidiano carioca.

Samba, sambistas, rodas e quadras de samba me fazem lembrar daquela baiana de Santo Amaro da Purificação (Recôncavo) que aos 22 anos e com uma filha, mudou-se para o Rio de Janeiro, tornando-se uma das lideranças da Pequena África e símbolo fundador da cara musical do Brasil: Tia Ciata ou Assiata. Se viva estivesse, Hilária Batista de Almeida comemoraria 156 anos hoje. Pertencente à comunidade de baianos radicados no Rio de Janeiro,ligados ao culto religioso de matriz africana, na área conhecida como Pequena África; promoveram rodas de samba, desfile de ranchos Carnavalescos - o rancho fundado por Tia Ciata Chamava-se "O macaco é o outro", referência e crítica ao preconceito racial -,
eram eles: Hilário Jovino Ferreira( Lalo de Ouro), Perciliana Maria Constança (mãe do João da Baiana), Tia Amélia do Aragão (mãe do Donga), o legendário Amor (Getúlio Marinho da Silva), Tia Bebiana, Tia Rosa, Tia Sidata. O samba mais afamado era da casa da Tia Ciata porque lá que os sambas, nascidos no morro, se tornavam conhecidos na roda e se popularizavam. Desta forma, essa mãe pequena respeitada, simboliza toda a estratégia de resistência musical à cortina de marginalização erguida contra o negro em seguida à abolição.

Na casa de Tia Ciata, surgiu Pelo Telefone, o samba que lançaria no mercado fonográfico um novo gênero musical. E os músicos do primeiro samba gravado foram recrutados entre seus ogans e frequentadores da casa: Donga, João da Baiana, Pixinguinha, Sinhô, Caninha, Heitor Dos Prazeres e outros. A casa de Tia Ciata transformou-se num centro de continuidade da Bahia Negra, logo de parte da diáspora africana, no Rio.

São Pixinguinha,"o encantado de Aruanda", referência preciosa na nossa música,também faz parte dessa reflexão ao dia 23 de abril. Completaria hoje 113 anos. O nosso Alfredo da Rocha Vianna Filho, o carioca Pixinguinha, foi saxofonista, flautista, compositor e arrajandor. Instrumentista virtuoso, compositor inspirado, comparado a Bach na arte da polifonia e do contraponto, além de arranjador de rara criatividade, é um dos fundadores da moderna linguagem musical brasileira e certamente o maior nome da música brasileira em todos os tempos.
Nosso padroeiro não foi exatamente um sambista, como o foram seus contemporâneoas e companheiros Caninha e João da Baiana, por exemplo. Mas seu trabalho como compositor, arranjador e intérprete, e sua ligação com o samba desde os primórdios fizeram dele uma espécie de patrono e, hoje é o legítimo santo padroeiro do samba.

Fica aqui uma reflexão a respeito dos significados do dia 23 de abril. É uma data marcada pela aceitação, luta a favor da expressão pela vida e de exemplos de uma sacralidade além do que foi instituído. Uma sacralidade que segue os moldes da nossa africanidade banto/nagô, onde o processo é de interação entre homens e entre o mundo visível (o Ayê, em nagô) e o invisível (o Orum), cujo padrão simbólico é buscado no sistema religioso ou no sistema de trocas simbólicas do grupo social em questão.



fonte: http://cabrochaflordosamba.blogspot.com

Um comentário:

  1. Queria divulgar uma importante ferramenta de informação para os simpatizantes da cultura Afro no Brasil. O professor José Flavio Pessoa de Barros está postando uma serie de vídeos no youtube sobre o tema. Ele é um dos mais importantes pesquisadores sobre o tema e nos presenteia com todo o seu saber nesta serie de vídeos sobre a religiosidade Afra Brasileira.
    os links são:

    http://www.youtube.com/watch?v=yiZLVwYztTQ



    http://www.youtube.com/watch?v=jgFPHYRpg1c



    http://www.youtube.com/watch?v=MpNsxmjZ6CM

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