Seja bem-vindo a esse espaço no qual se pretende multiplicar conhecimentos pertinentes ao continente africano e de sua diáspora no Novo Mundo. É reconhecida a necessidade das trocas de saberes e a socialização do conhecimento na área da História, com vistas ao desenvolvimento das atividades de ensino e pesquisa na busca da inclusão de temas que contribuam para a compreensão da multiplicidade das experiências humanas e a criticar estereótipos organicamente naturalizados.



quarta-feira, 7 de abril de 2010

CELINA MUHLANGA SIMANGO - Dia da Mulher Moçambicana



A Propósito do 7 de Abril - Dia da Mulher Moçambicana
por João Craveirinha

Uma Reabilitação importante da História:
CELINA MUHLANGA SIMANGO

Uma Mártir paradigmática, ignorada em Moçambique.
(Muhlanga, lê-se aproximadamente Mux.Lhanga – (Muchanga)
PREÂMBULO ETNO-HISTÓRICO XINDAO / INGUNI:
Excerto de saudação laudatória (de louvor) muito antiga – mais de 100 anos.
Xithopo / xithoko – zelo: «Davuka! Muhlanga! Duva!... Va Ka Muhlanga Va Huma
Musapa i Vandau». (Acorda Muchanga! Zebra!... Os Muchangas saiem de
Mussapa são vaNdao) …«xa ku remero ra re kure, bare» (nascidos de algo
pesado que veio de longe).
Segundo a História o Clã Muchanga veio de muito de longe. Originário para lá do
Sul de Moçambique (Cordilheira dos Libombos - Suazilândia). De uma origem
muito antiga iNduanduê (iNguni), derrotados em guerras com os Muthétuas –
Zulos da era de Tchaca Senzagakhona iZulo (1816 / 1828). Alguns são
integrados nos Zulos. Um dos generais vaNguni convertidos do Imperador
Tchaca Zulo (n.1787 / m.1828), era Muhlanga. Outros Muhlangas (Muchangas),
fogem mais para Norte (Zimbabué e Manica), integrados nas hordas vaNguni
(dos Grandes). Em 1825, iNgunis reconquistam Mussapa e Mossurize chefiados
pelo iNkôssi Soshangana, General do derrotado Zuide, Rei iNduanduê.
Soshangana, mais tarde avô de Mundungazi (alcunhado inGungunhane),
segundo filho de uMuzila na linha de sucessão do Império da velha Gaza em
Manica (e Sofala). (O nome Mundungazi provém de Mundu = pessoa – iNgazi =
sangue (real). Palavras de origem shona / indao). O verdadeiro nome de
inGungunhane era iNdao e isto nunca havia sido dito antes.
Na invasão do Sul do Save (1889), o Imperador Mundungazi, de alcunha
inGungunhane o iNgonhamo (leão), marcha com cerca de 100 mil vaNdao
(despovoando Mussapa e Mossurize), rumo a Mandlha – inKaze (Mandlakaze -Mandjacaze), massacrando os vaLengue (chopes) em maioria –, do rio Limpopo
ao rio Save. Um dos dois principais tiNduna – chefes de inGungunhane era o
todo poderoso General Simango e outro de nome muTazabano, veteranos do
tempo de seu pai uMuzila, sepultado em Udengo – Manica (Sofala), onde
permanece. Outros Muhlangas (Muchangas) fixam-se no Sul do Save na Nova
Gaza, depois da conquista.
Os Muchangas, anteriormente (1820/30), ocupam Mussapa – Manica (dos dois
lados de Moçambique e de Zimbabué), zona dos Shonas, conquistando-os.
Surge o fenómeno de aculturação mútua – vencedores iNgunis Muchangas com
Shonas derrotados. Mais tarde os Shonas de Moçambique são denonimados –
iNdao. (Vide livro de Crónicas Históricas, 2ª edição: - Moçambique, Feitiços,
Cobras e Lagartos, pag. 45, último parágrafo).
A saudação laudatória final dos Muchangas entoada em xiNguni é elucidativa:
«Hlambasi wa Mafukuthe, wa Ucenga. Yebo!». Indicação de que na realidade o
Clã Muchanga é vaNguni e veio do Sul, o mesmo se aplicando aos Dhlakamas
(De – lha – kamas).
Na origem de Mamã CELINA MUHLANGA (n.1937? / m.1981?), esposa do
reverendo Uria SIMANGO (antigo vice - Presidente da FRELIMO), correm genes
(ADN) de lendários guerreiros Muhlangas (Muchangas) e na descendência de
seu casamento (filhos), se misturam ainda genes de avós Tivanes dos iMpfumos
(rongas de Maputso) e Shonas de Zimbabué da parte do pai Uria Simango
(n.1926/m.1981?); outro grande mártir do Nacionalismo Africano e de
Moçambique. (ADN = ácido desoxirribonucleico).
Mas que crime terá cometido Mamã Celina? O “Crime” de ser MULHER,
ESPOSA e MÃE MOÇAMBICANA?! Ou na realidade, Celina Muhlanga Simango,
terá sido uma Mártir da Independência e da Liberdade simbolizando todas as
outras MULHERES MÁRTIRES ignoradas que a Luta pela Independência gerou?
“Mama” Celina foi Presidenta da LIFEMO – LIga FEminina MOçambicana que
daria origem ao D.E.F (1968) e à OMM a 16 Março 1973. Ao citarem a OMM sem
dúvida um dia na História, o nome de Celina Muhlanga Simango, terá de ser
lembrado como uma das pioneiras na organização política feminina na Luta
anti-colonial em Moçambique e em África.
A 4 Março 1968, é extinta a LIFEMO e criado o D.E.F – Destacamento Feminino
da FRELIMO do qual Josina Muthemba viria a participar como dirigente. Josina
Abiatar Muthemba (mais tarde Machel), nasce em 1945. É mãe a 23 de
Novembro 1969. Morre em 7 de Abril 1971, em Dar-es-Salaam (Hospital Chinês
de Kurassine). Sucumbe ao esforço físico de acompanhar a situação das
crianças afectadas pela guerra, no interior de Moçambique – Cabo Delgado e
Niassa. Daí o 7 de Abril, Dia da Mulher Moçambicana.
No entanto, Celina Muhlanga Simango, sofreria no corpo e na alma rasgada de
dor o destino cruel de todas as mártires de uma Luta de Libertação. Fiel ao lado
de seu marido cumprindo a jura celebrada no casamento cristão: “até que a morte
nos separe” – na realidade nem na morte separados. Estariam unidos para
sempre na entrega total pela causa de uma Independência de Moçambique para
outros a desfrutarem sem a merecerem. “Os primeiros serão os últimos” –, reza a
Bíblia que seu marido, Uria Simango, tão bem conhecia assim como os Cânticos
dos Salmos de que se serviu para atenuar a dor física das bastonadas a oito
mãos que recebia na tortura em 1975 no campo de Nachingueia em Tanzania.
No dia das Mulheres Moçambicanas, resgato a memória de Mamã Celina
Muhlanga Simango, humilhada, torturada, somente por não renegar seu marido
Reverendo Uria Simango – Presidente interino da Frelimo após a morte de
Eduardo Mondlane, em 3 Fevereiro 1969. Em Novembro de 1969, Uria Simango
é oficialmente expulso da Frente de Libertação de Moçambique – FRELIMO.
Na figura dessa Mulher – Esposa – Mãe, Celina, se resgatam todas as
MULHERES Moçambicanas ou Moçambicanizadas que foram caluniadas, presas
e enviadas a fatídicos campos da morte por Moçambique fora e em Niassa, nas
diversas operações produção desde 1975. MULHERES violentadas na condição
humana, e, outras, na fuga, devoradas por leões ou mortas por metralhadoras
kalashenikove.
In Memoriam a essas MULHERES MÁRTIRES, este Dialogando de hoje, sem
diálogo, chora lágrimas de silêncio!
Tanzânia – Nachingueia – Janeiro 1975 – Apresentação dos ditos “reaccionários” depois


fonte:http://www.zambezia.co.mz

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